José e seu “possante” Gol verde, ano 87, estão desesperados. No banco de trás uma mulher, uma Maria com uma criança prestes a nascer, está mais calma que o motorista, mas mesmo assim desesperada, afinal vai ser mãe e pela primeira vez.
A chuva cai forte e José corta os carros como se estivessem parados, nas curvas é um pé na embreagem e outro no acelerador, freio? Pra que serve isso? A sua frente há um hospital público, é lá o destino já que os particulares estavam todos fechados para as férias coletivas de fim de ano.
Um carro, um Astra, acabou de sair da frente do hospital, há uma vaga para estacionar o Gol, minúscula, mas há uma vaga! José não quer saber de nada, arranca em cima do pára-choque do carro da frente e em seguida bate no pára-choque do carro atrás, e enfim estaciona a quase um metro do calçada e exageradamente torto, mas numa altura dessas o que importa? José sai em desespero no meio da chuva forte, entra no hospital deixando sua esposa no carro, chega até o guichê da recepção e comunica à velha enfermeira:
- Minha esposa está prestes a ter um filho, chama o doutor! – diz José gritando, mesmo sem perceber isso.
- Desculpe senhor, não temos leitos e o único médico de plantão está descansando agora, afinal já vai dar meia noite!
- O que? Ela está tendo um filho e o cara está dormindo!?!? Eu pago imposto pra que? Preciso de um quarto! Agora!
- Senhor, me desculpe, mas nada posso fazer, o médico não se encontra no hospital, acabou de sair de carro, não sei quando volta.
- Então me dê um leito! Por favor!
- Todos estão ocupados, senhor. Hoje teve uma manifestação contra uma Conferência Política aqui na cidade, muitos manifestantes ficaram levemente feridos, mas ainda sim feridos, você não viu o jornal?
- Me dê por favor um lugar! Qualquer um! Minha mulher não pode ter um filho dentro de um carro… ainda mais esse filho… – diz ele abaixando a voz.
- Posso pedir para a enfermeira improvisar uma maca para ela na lavanderia, é meio sujo, mas…
- … tudo bem… não tem mais jeito mesmo… mas então ande, vou buscá-la!
José correu para buscá-la e junto com a única enfermeira no hospital a levou para lavanderia do sub solo, não há muita luz no lugar, aquela porcaria daquela lâmpada está queimada a mais de 3 meses! Só há a luz amarela da lâmpada que se encontra no fundo do local. O lugar cheira a roupa suja, também pudera, se não cheirasse seria estranho, mas era o que tinha no momento. Havia uma maca feita com as roupas já lavadas que esperava a futura mamãe e um cesto coberto por um pano de um amarelo bem sem graça que esperava o futuro recém nascido. A enfermeira saiu, afinal ela tem todo um setor para cuidar sozinha, pois alguns segundos antes do casal chegar o médico saiu de carro com a outra enfermeira em seu Astra preto semi-novo sabe-se lá Deus pra onde.